Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais - PARTE III

Depois de uma Primeira Parte e de uma Segunda Parte , eis que avançamos para o fim da entrevista com um dos nossos maiores escritores da a...

Depois de uma Primeira Parte e de uma Segunda Parte, eis que avançamos para o fim da entrevista com um dos nossos maiores escritores da actualidade - Afonso Cruz. Nas duas primeiras parte avançámos através das suas obras, o que está por trás de cada uma, o que é que fascina o autor quando conta uma história. Nesta última abordamos outras facetas do autor, as vertentes mais filosóficas e artísticas que acabam por ter sempre influência na sua literatura. Espero que gostem, tem sido uma bela viagem.

Fotografia Vitorino Coragem
Numa outra entrevista que li do Afonso, ele disse, mais coisa menos coisa, que a arte era a expressão do que não existe. Ao ler isto, e olhando para toda a vertente artística do Afonso, o meu pensamento foi mais que a arte era a forma de expressão da nossa percepção do mundo. Ele comentou: «Sim, eu quando falo disto, de que se trabalha o que não existe, é como um ficcionista, ele trabalha nas coisas que não existem. Mas acima de tudo porque a arte é um objecto artístico que não é uma reprodução de uma coisa que já existe, é uma coisa nova e por isso mesmo não existe. Se eu quiser criar um objecto artístico é uma coisa nova e única, ainda não existe, portanto tenho de pensar numa coisa que, na verdade, é uma “mentira” e trabalho com essa matéria. Ou seja, todos os artistas trabalham com… podem partir do real, evidentemente, mas têm de criar uma rotura com a realidade para nos dar uma coisa nova. Na verdade, todas as invenções são isso. Inventas um lápis, não existe um lápis, mas tu inventaste o lápis. Esse lápis não existia, existiu primeiro na tua cabeça e depois é que o criaste, mas ele não existia na realidade. A maior parte das coisas que nós criamos e que inventamos, fazem parte desse lado de ficcionista – trabalham com coisas que ainda não existem e depois a realidade é que se vai adaptar ao que não existe, ainda. Isso tem muito a ver connosco enquanto seres humanos, porque nós não nascemos com as armas dos outros animais. Nós não nascemos com pêlos, temos de fazer roupas, criar roupas, criar uma coisa que não existe - os tais pêlos que não existem. Não nascemos com garras, temos de criar armas. Não nascemos com utensílios, até para comer precisamos de utensílios – não necessariamente, mas fazem alguma falta. (risos) A verdade é que quase tudo o que nós fazemos, não nasceu connosco. É criado por nós. O ser humano depende, acima de tudo, da cultura, não nasce com essas coisas. Durante muitos anos, ao contrário dos animais que são adultos muito cedo ou independentes muito cedo, nós passamos anos e anos a aprender coisas, porque precisamente nós dependemos da cultura e só a cultura é que faz de nós seres humanos, senão seríamos iguaid a um animal - sem desprimor para com nenhum animal -, mas o nosso caminho é um pouco diferente. Não nascemos com as mesmas armas, temos de criar essas armas. Isso faz-se através da aprendizagem, ensinando aos outros, aprendendo dos outros, inventando novas coisas e essa cultura marca muito a nossa maneira de estar. Por isso, quando falo da arte e da ficção da leitura como trabalho de coisas que não existem, tem mais a ver com essa ideia de criação.»


A verdade é que a própria arte tem servido, muitas vezes, para moldar a visão das pessoas sobre o mundo: «É como aquela frase do Oscar Wilde que “a vida imita a arte”. Portanto, tu tens uma visão e essa visão, muito provavelmente, torna-se depois na maneira de toda a gente ver o mundo. Essa visão antes do artista ter colocado cá fora, não existia, é uma nova criação. É tão básico isto, que a nossa própria percepção, por vezes, até tem a ver com a verdade, é só uma descoberta, não é uma invenção. Por exemplo, nós descobrimos que não é o Sol que anda à volta da Terra, é a Terra que anda à volta do Sol e, de repente, toda a gente olha para o mundo desta maneira e não da outra. Assim um dia irá aparecer outra teoria qualquer que nós vamos passar a olhar para o mundo segundo essa teoria que, na verdade, não passam de teorias, são sempre teorias.»


Ilustração Afonso Cruz para o 5º Aniversário
do Blogue BranMorrighan
Para quem não sabe, o Afonso começou por realizar alguns filmes, sendo que hoje em dia acumulou vertentes artísticas como escritor, ilustrador, músico (nos The Soaked Lamb) e não se fica por aqui. Ao ver tantas linhas de acção, em que são raras as pessoas que conseguem ter tanto talento em todas como Afonso tem, perguntei-lhe se estas eram as suas várias formas de expressar a sua visão do mundo através dos vários sentidos: «São, são… São mesmo muito diferentes e complementam-se…Eu tenho a sorte de ter conseguido, pelo menos, aliar algumas delas e conseguir expressar-me em duas ou três diferentes e isso dá-me mais possibilidades. Consigo ser mais eficaz. Pelo menos, na minha cabeça, por vezes tenho uma ideia e ela é mais facilmente comunicável através da imagem, outras vezes através de sons, através de palavras. Portanto, encaminho para aquele que eu acho mais capaz. Mas enfim… outras pessoas terão sempre a mesma, não é um limite. Estas coisas também são más. As pessoas não se especializam tanto em determinada coisa e até se diz que… um provérbio qualquer espanhol que diz “Quem sabe muitas coisas, não é mestre de nada” ou uma coisa assim.» 

É claro que discordei na hora: «Mas há muitos casos assim, há muitos casos de pessoas que eram realmente muito boas em muitas coisas… Muitos artistas integrais, digamos assim, no século XX mais importantes e também um pouco esquecido Almada Negreiros que era um pintor excelente, um grande escritor, geómetra, portanto, era um tipo muito completo e fazia tudo muito bem. Eu acho que não há impedimento nenhum para isso. Até porque muitas vezes no pensamento artístico é igual. A parte criativa é igual. Depois a técnica e a manifestação disso é que é diferente, mas essa técnica qualquer pessoa pode aprender, não é verdade? Porque a técnica… Bem e a criatividade também! A criatividade não é uma coisa que nasça com as pessoas. É uma coisa também que se educa, que se trabalha e que se aprende.»


Esta é outra questão interessante, será que a arte é mesmo algo que se aprende? Não nascerá naturalmente já com certas pessoas? «Eu acho que não. Há pessoas com inclinações, mas também as podem perder ao longo da vida. Eu conheci imensas pessoas que desenhavam muito bem em criança e que nunca mais desenharam na vida e até têm vergonha de na altura as pessoas dizerem “Ah, mas ele era tão bom desenhador”. Também conheço imensos casos opostos, em que desenhavam mal e que depois tornaram-se grandes ilustradores ou grandes pintores ou grandes desenhadores. Eu acho que isto também depende não só da inclinação, mas depois do trabalho que tu colocas nesse gosto ou nessa paixão. Acima de tudo, é muito importante gostar muito daquilo que se faz ou gostar muito de ser determinada coisa e investir nesse caminho. Há muito trabalho a ser feito e a inclinação, só por si, não chega. Acima de tudo é isso. Porque às vezes até é contraproducente sentires que és um talento natural. Às vezes tens determinada facilidade para umas coisas e quando não as trabalhas, porque já tens aquilo e por ser uma coisa garantida acabas por não evoluir. Acontece muito no desporto, nós vemos pessoas muito talentosas até determinada idade e depois com o tempo desaparecem e que nunca mais fazem nada. Por outro lado, há outros atletas e desportistas que estão sempre a evoluir... Acontece o mesmo na arte.»


Sem me querer meter na vida pessoal do Afonso, mas por saber que ele tem dois filhotes e toda esta apetência para as artes, não pude deixar de perguntar se passar-lhes esse gosto era algo que de que tinha intenções de fazer: «O que eu tento é não ter de impor nada desse tipo, creio que não resultaria. Tento é que eles tenham acessibilidade a maior parte destas coisas, ou seja, que tenham sempre lápis de cor, tenham canetas de filtro, tenham papéis, tenham uma impressora, tenham acesso à informática – hoje em dia, é fundamental – mas também tenham sempre livros à mão e que possam, se quiserem, interessarem-se. Não estou a impingir os livros, mas eles estão à mão e estão acessíveis. Estas coisas todas são-nos acessíveis e, portanto, se mostrarem algum interesse e é normal que o tenham porque se me virem a ler – e eles vêem-me a ler – também é normal que sintam alguma curiosidade pelos livros e que os procurem. Depois logo se verá se gostam ou se não gostam, porque há pessoas que não gostam e não são, por isso, pessoas menores ou piores pessoas por não gostarem de ler. Acho que ler é muito importante, acho que a cultura é muito importante, mas há muitas formas de nós aprendermos, há muitas formas de ganharmos essa massa cultural. Não é só necessariamente através dos livros que nós o fazemos e que conseguimos. As viagens é uma grande maneira de conhecer o mundo, de conhecer as pessoas, de perceber a nossa sociedade, etc.. Há imensas maneiras de o fazer que não é exclusiva desta ou daquela arte. Por isso, a minha maior preocupação é que eles tenham acessibilidade a estas coisas e que estas coisas lhes sejam acessíveis. De resto, será mais a ver o feitio deles do que com o meu desejo ou imposição.»

Agora numa perspectiva mais geral, sendo o Afonso um artista no verdadeiro sentido da palavra, perguntei-lhe se achava que estamos num país que dá realmente oportunidade para os artistas terem espaço de expressão ou se é preciso ter alguma sorte e paciência para se conseguir fazê-lo: «É complicado. Nós somos um país cuja língua não tem a expressão que deveria ter se pensarmos em números. Temos um grande número de falantes, por exemplo, isto pensando na literatura, mas nós e o Brasil não comunicamos assim tanto e não partilhamos tanto as coisas de uns e de outros, ao contrário com o que se passa com Espanha e a América do Sul, ou América Latina. Neste caso, muitas vezes, os livros são logo publicados nos países todos e acabam por ter um mercado enorme e uma visibilidade muito maior. Nós, porque também a cultura tem caminhado nesse sentido, a língua inglesa tem um poder enorme e, portanto, os portugueses terão sempre de trabalhar muito mais para chegar a esse mercado. Podem ser muito bons, mas muito provavelmente não vão ser traduzidos porque eles não investem muito e portanto aí há esse esforço. Por outro lado, a competição lá é muito maior do que num meio pequeno e também se pode singrar mais facilmente, se calhar, nestes meios mais limitados. Tem as suas vantagens e as suas desvantagens – como tudo na vida – agora eu acho é que independentemente de ser fácil ou não ser fácil, conseguirmos ou não conseguirmos viver daquilo que gostamos, acho que devemos de apostar nisso. Se eu gosto de determinada coisa, tenho paixão por determinada coisa, tento fazer com que isso seja o meu caminho. E muito provavelmente porque realmente gostamos, não me torno naquele funcionário cinzento que tem apenas de cumprir o seu horário laboral e mais nada. O que se passa, por exemplo, comigo é que o meu trabalho é igual ao meu ócio. Eu gosto muito de escrever, e estou a escrever no tempo… ou melhor! Eu não tenho tempo de ócio nem tenho trabalho, eles são iguais. Ler também faz parte do meu trabalho, não é verdade? Portanto, é uma coisa que gosto muito e tudo isso… não há uma fronteira definida entre o que é realmente trabalho e o que é lúdico. Eu acho que isso é o ideal. Porque é aí que nós temos aquela sensação do trabalho como não alienado, um trabalho que é vocacional, tu sentes um apelo. A vocação vem da palavra voz, é uma espécie de apelo. Tu segues esse caminho e eu acredito que naturalmente, se realmente gostares, se realmente trabalhares, mais tarde ou mais cedo tudo o resto virá por acréscimo. Isso em Portugal, em Espanha, na China ou Inglaterra acho que funciona. Portanto, acho que essa será a maior preocupação.»


O Afonso conta-nos como foi com ele: «Eu desde que comecei ir à escola, etc., fui sempre muito incentivado a ser um sonhador, um artista plástico, a arte era… E que também, se nós imaginarmos, a maior parte dos meus amigos, os pais dos meus amigos pensavam “Ah, mas se ele tem jeito para desenhar, é melhor escolher arquitectura porque depois conseguirá um trabalho até mais sério”. Porque há muito esta crença. Na verdade, depois é igualzinho. Há imensos arquitectos desempregados como há imensas pessoas que não conseguem viver da arte somente. De qualquer maneira, sempre fui incentivado nesse sentido e fui seguindo o meu caminho. Até ao ponto, de certa altura, nem gostar nada de desenhar e já ter assim uma espécie de “malapata” com a ilustração e com o desenho, mas isso também faz parte da minha personalidade. Sempre gostei de mudar, sempre gostei de investigar outras coisas, tentar outras coisas, experimentar outras coisas. Tenho alguma curiosidade sobre as coisas que gosto, se gosto de cerveja, tento fazê-la, se gosto disto, tento perceber como é que se faz e se eu seria capaz de o fazer. No fundo, é isso que tenho feito.»


É sabido que o nosso escritor produz a sua própria cerveja, mas recentemente houve outra paixão que se manifestou através da rede social Instagram - a fotografia. O mais curioso é que mesmo não vendo o autor das fotos no Instagram, quando aparece uma foto do Afonso eu já sei que é dele ainda antes de fazer a verificação. Fiquei a saber que isto vem já de duas gerações anteriores, já que o pai e o avô também eram fotógrafos. Inclusive o avô tem ainda uma sala de exposições na Figueira da Foz com o seu nome. Em tom de despedida, ele fala-nos um pouco de como a fotografia tem presença na sua vida: «O meu avô trabalhou em fotografia a vida toda. Começou a trabalhar aos doze anos e morreu fotógrafo. Sempre trabalhou em fotografia, não fez mais nada na vida e era uma pessoa muito interessada. Por exemplo, na altura da 2ª Guerra Mundial não havia reveladores, nem fixadores, as pessoas dificilmente conseguiam adquirir alguns químicos. Ele próprio criou as suas fórmulas e começou a fazer com as coisas que arranjava. Mas eu sempre tive uma relação com a fotografia um pouco distante, apesar de ter estudado na António Arroio e mais tarde nas Belas Artes, e ter tido este convívio muito próximo com a fotografia, nunca liguei muito… E agora o Instagram até começou porque estava com um amigo meu – que é fotógrafo – na feira do livro e eu disse “Epá, já não consigo dar vazão ao Facebook, a todas as mensagens, comentários…” e então ele disse “O Instagram é muito porreiro porque até podes depois partilhar no Facebook. Eu agora raramente vou ao Facebook, vou ao Instagram…” Então fiquei a pensar nisso e pensei “Então vou criar uma conta no Instagram”. Criei a conta e depois, claro, começou-me a dar muito mais trabalho (risos) porque depois gosto de ter umas fotografias com as quais me sinta confortável em expô-las, em mostrá-las às outras pessoas. Portanto, dá-me algum trabalho fazer isso e pensar nisso. Na verdade, o que me aconteceu é que agora tenho o Facebook e tenho o Instagram para trabalhar. (risos) Mas estou a gostar imenso de fotografia. Também porque entretanto o meu avô morreu, recebi algumas máquinas que vieram dele, do meu pai… Fiquei com imenso material fotográfico de qualidade nacional e, aos poucos fui… lá está! Por estar acessível, por estar perto de ti, tu acabas por “Ah, deixa-me cá experimentar isto ou aquilo”. E pronto, comecei a gostar mais do que gostava e cada vez mais.»

Uma foto publicada por @afonso_cruz a


FIM DA TERCEIRA PARTE

E acaba assim, a entrevista com o Afonso Cruz, um dos meus escritores preferidos de todos os tempos e que parece ainda mal ter começado, apesar da extensa marca que já vai deixando em cada vertente artística em que toca.

As outras entrevistas ao autor podem ser encontradas aqui:

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