Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais - PARTE II

Ontem foi publicada a PARTE I desta grande entrevista ao Afonso Cruz . Depois de uma primeira entrevista ao escritor em Janeiro de 2013, qu...

Ontem foi publicada a PARTE I desta grande entrevista ao Afonso Cruz. Depois de uma primeira entrevista ao escritor em Janeiro de 2013, que pode ser lida aqui, houve a necessidade de aprofundar mais algumas obras, centrarmo-nos nos seus mais recentes trabalhos e ir para além das histórias - saber motivações, o que move o autor para escrever determinadas coisas. E é por aí que começamos esta PARTE II. 

Fotografia Vitorino Coragem
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, como foi dito anteriormente, foi um livro que emocionou muitos leitores, que levou a diversas interpretações e sentimentos, principalmente na temática de como é perder um filho. Claro que cada leitor sente sempre o livro à sua maneira, mas do lado do escritor, o que é que estava em causa quando escreveu aquela narrativa? «Acima de tudo, esta relação com o outro e com a diferença. Porque é também um tema transversal nas coisas que escrevo. A Boneca de Kokoschka também retrata muito disso…Tal como o Pintor. A verdade é que as relações sociais, a sociedade e… não gosto nada de me alhear desses assuntos e acho que são muito importantes. Essa era uma das preocupações principais. Claro que tem a ver com a perda de um filho e tem também a ver com a nossa capacidade de lidar com a dor, com a vida,  de quando olhamos para o mundo e sentimos que há imensas injustiças… Foi tentar criar alguma luz no meio desta coisa toda e tentar perceber que sentido faz um mundo criado assim em que tudo come tudo, que nós já sabemos à partida que vivemos num jogo já viciado - que nascemos e vamos morrer. Na realidade somos realmente optimistas, porque se tu fosses jogar um jogo em que diziam “ olha vais perder”, tu não querias jogar, mas todos queremos jogar. Não só queremos jogar como tentamos fazer o melhor possível e às vezes até tentamos enganar aquele final destinado. Fazemos isso através da religião, da filosofia, da arte, através de imensas coisas que podem enganar esse final – e isso claro é uma preocupação. Acima de tudo, a perda de um filho acaba, se calhar, por ser aquela que é mais difícil de suportar porque é a nossa descendência. Os nossos ascendentes nós achamos mais ou menos natural vê-los morrer, mas os nossos filhos nós não esperamos vê-los morrer. Se calhar, é a perda mais difícil suportar. Mas precisamente por isso, por ser uma coisa tão complicada e tão difícil o facto de sermos capazes, depois de perdermos um filho, perdoar quem o fez e, mais do que isso, caminhar em direcção a ele. Eu acho que é quase épico, verdadeiramente a grande coragem do ser humano que é fazer isso.»


Aproveitando esta questão de caminhar em relação ao outro, de perdoar e aceitar, peguei no tópico do título Jesus Cristo Bebia Cerveja. Quem vê o título pode pensar várias coisas e até mesmo condenar o autor por ter escolhido um título, como já ouvi dizer, provocatório. Perguntei ao Afonso se ele já tinha sentido algum tipo de recriminação por causa deste título: «Imagino que sim. Algumas pessoas já contaram-me algumas histórias. Há uma senhora sentada ao lado no metro de alguém que está a ler o Jesus Cristo Bebia Cerveja e faz um comentário sobre isso. Por exemplo, nas edições espanhola e italiana, não aparece Jesus Cristo na capa por terem algum receio que fira susceptibilidades. Agora quanto ao título, normalmente uso os títulos um pouco como metáfora da história. Como A Boneca de Kokoschka ela aparece muito pouco também, no caso de Jesus Cristo Bebia Cerveja também, mas é um exemplo de transformação. Tanto a cerveja quanto Jesus Cristo, esse é um livro em que Jesus Cristo é Deus e é homem ao mesmo tempo. Há ali uma sobreposição de planos – há um plano mítico e histórico – e a própria cerveja tem isso também. Há essa transformação numa coisa duradoura que não morre. Quando nós “matámos” o cereal, fazemos apodrecer o cereal para o podermos transformar nesta bebida. Ela mais do que o pão, por exemplo, apesar de ser feito pela levedura do pão, dura muito mais do que o pão. Tu consegues guardar cerveja e portanto tem uma longevidade muito maior e tu consegues transformar o grão numa outra coisa, adicionar-lhe um patamar.»


Para ficar então esclarecido, o Afonso explica-nos sobre o que realmente trata Jesus Cristo Bebia Cerveja: «O livro é basicamente sobre isso, sobre estas coisas que tu és capaz de sacrificar, ou seja, de perder o grão e transformares-te numa outra coisa qualquer. Nós todos temos isso na vida e, se calhar, é assim que nos dá sentido à vida. É saber sacrificar essas coisas por algo que nós achamos mais valioso do que nós próprios como os bens ideais, por vezes outra pessoa – o amor é o exemplo disso. Uma pessoa é capaz de morrer porque ama outra pessoa ou é capaz de fazer um sacrifício enorme por amor ou por dedicação, por filosofia, por ideais, por tudo, do bom até ao mau – muitas vezes é horrível, como se passa com o radicalismo religioso – mas é uma maneira de nos trocarmos, de nos relacionarmos, de nos transformarmos e também é uma maneira de enganar a morte. Porque torno-me naquilo que gosto.»


Um exemplo desta interacção é dado pelo nosso escritor: «Eu gosto muito do Saint-Exupéry, gosto especialmente do livro Cidadela. Nesse livro, julgo que ele diz que quando se mata um jardineiro, ele morre uma vez, mas se matarmos o jardim desse jardineiro, ele morre duas vezes. Porque, na verdade, este está sempre ligado, o seu trabalho diário é de criar aquele jardim. Quando lhe tiras aquilo, não só o mataste a ele como destruíste o jardim. E isto acontece muito na vida das pessoas. Nós entregamo-nos a uma coisa e se nós morrermos não há problema, porque essa coisa permanece. Temos essa sensação que conseguimos enganar a morte e, se calhar, até o fazemos na verdade. Porque continuamos a viver de outra maneira – colocamo-nos nessa coisa. O Camões dizia “o amador, torna-se na coisa amada.” Nós acabamos por nos tornar nas coisas que amamos e se isso que amamos continuar a persistir ou continuar viva, em especial se for um ideal ou uma ideia de sociedade, uma ideia de evolução, etc., nós na verdade continuamos vivos ali. Não com as nossas características, não com os nossos acidentes, eu não continuo com o nariz que tenho, nem com… mas também não é uma coisa que queira preservar pela eternidade. Acho muito mais importante preservar as nossas ideias, os nossos pensamentos, a nossa maneira de estar. E se existisse o rio da morte, como os gregos tinham, e que eu tivesse de passar aquele rio e tivesse que deixar alguma coisa para trás, o que eu não me importaria de deixar efectivamente era o meu corpo, algumas coisas da minha individualidade, algumas características específicas, mas gostaria muito que nesse barco fossem algumas coisas que considero muito mais importantes do que isso e que são muito mais abstractas – que não têm nada a ver comigo propriamente, tem mais a ver com o pensamento, com uma ideia.»


As Enciclopédias são um exemplo de obra onde o autor expressa vários desses pensamentos e ideias, sendo que o formato reúne tanto aforismos, citações, como pequenos textos. Sendo que a primeira Enciclopédia foi também a primeira obra que o Afonso escreveu questionei-o sobre o que o motivou a construir este formato. Que liberdade é que ele sentia para fazer disto algo contínuo: «Quando comecei a escrever a enciclopédia nem sequer estava a pensar escrever, nem em ser escritor. Comecei a escrever, pensei num conceito, fiz um blogue privado e só chateava os amigos - e não chateava muito porque não sou muito de chatear. E aquilo inseria-se nesse contexto, podia todos os dias escrever uma ou duas histórias, às vezes só um aforismo, um poema… Conseguia incluir tudo naquela enciclopédia. Só quando já tinha uma dose grande de verbetes é que me apercebi “se calhar, isto dava um livro”. Só nessa altura é que decidi enviar para uma editora, pois até lá ainda não tinha pensado nisso. Aquilo era simplesmente um blogue para mim, como hobby e não mais do que isso. Depois acabou por ser o projecto em que eu me envolvo… não diria mais, mas como tenho esta continuidade, estou sempre a pensar na enciclopédia. Há histórias que me pedem, há textos que me pedem, que quando os escrevo para publicações efémeras teoricamente iriam para o lixo, mas eu penso de modo a que eles não vão parar ao lixo mas à enciclopédia. Escrevo-os a pensar na enciclopédia.»


Uma característica das Enciclopédias é o facto de Afonso Cruz misturar tanto realidade como ficção, sendo que o leitor poderá nem sempre conseguir discernir que parte pertence a cada uma destas duas facções. Este é um jogo que o nosso escritor gosta de fazer nas suas obras em geral: «Gosto, neste caso gosto especificamente porque esse é também outro assunto que falo muito nos livros que é a realidade, a ficção, a verdade… Eu gosto muito de um filósofo que é o Berkeley. As pessoas dizem que ele era solipsista, portanto ele acredita que o mundo é percepção. Se não houver alguém a percepcionar alguma coisa, essa coisa não existe. Ela só existe se alguém testemunhar essa coisa, se houver alguma consciência a olhar para essa coisa. É aquela história zen do “se um pinheiro cair numa floresta faz barulho ou não faz barulho, se ninguém estiver a ouvir?” Para o Berkeley não fazia barulho - o pinheiro a cair não faz barulho se ninguém estiver a ouvir. O que de certa maneira também é consentâneo com muitas coisas que nós experimentamos. Por exemplo, ainda no outro dia o meu filho perguntou se aquilo era vermelho e eu disse “Não, isso não é vermelho. Tu é que vês vermelho. Os objectos não têm cores. Nós é que vemos as cores dos objectos porque é a reflexão da luz. A cor não é uma propriedade intrínseca de um objecto. Outras pessoas com olhos diferentes veriam com cores diferentes. Isso tem a ver a maneira como vemos o mundo.” Os ouvidos é a mesma coisa, nós temos aqui uma coisa que vai interpretar ondas sonoras que passam pelo ar e nós interpretamos como palavras, como uma orquestra a tocar, como coisas incríveis! Ainda no outro dia estava a falar nisso em relação aos vinis. Até já escrevi um texto em que falei disso. Os vinis, para mim, são um mistério enorme. Aquilo são sulcos criados naquele vinil e naquele sulco tu passas uma agulha e essa agulha, mesmo que não seja amplificada, permite-te ouvir. Estão a tocar orquestras inteiras. Tu consegues ouvir oboés, trompetes, saxofones e uma série de coisas e aquilo parece realmente magia - e é também extremamente mecânico. Não são zeros e uns que depois são interpretados… Não, aquilo é uma coisa perfeitamente mecânica. Isto para dizer que, se calhar, o universo é percepção. Portanto, tem a ver com a consciência, com haver alguém a percepcionar esse universo e, se calhar, não existe nada se não existir consciência. E a consciência, se calhar, é a base disso tudo. Porque me preocupo com essa questão da realidade e da ficção, na enciclopédia já a lês precisamente com isso, ou seja, desvaloriza de certa medida aquilo que nós temos por realidade, e que sentimos que existe uma coisa que é a verdade, que é real, que é palpável e etc., e existe depois um mundo ficcionado. Eu acho que eles os dois são exactamente a mesma coisa e a enciclopédia é um exemplo disso porque mistura essas coisas.»


Focando-nos um pouco sobre esta última - Mar - o autor conta-nos que este volume acabou por surgir não da sua proximidade com o mar, do tempo que viveu na Figueira da Foz, mas antes de uma série de textos que tinha escrito para outra revista: «Na verdade, não tenho muita relação com o mar, ou melhor, não tenho uma relação especial – obviamente que gosto muito de o contemplar, está fora de questão –, mas isso não quer dizer, por exemplo, que não adore viver no campo, também gosto muito do campo. Ambos têm a sua beleza e o seu fascínio. No caso da enciclopédia, desta do mar e do tema, a determinada altura saiu uma revista em que me pediram textos sobre o mar e a minha coluna chamava-se “Enciclopédia da Estória Universal”, mas só sobre o mar. Então escrevi quatro ou cinco textos e a revista entretanto acabou, ou foi descontinuada como se diz hoje em dia. (risos) Eu não só tinha aqueles textos, como também a determinada altura fui visitar o museu marítimo e fiquei muito impressionado com as histórias dos pescadores de bacalhau. (risos) Naquela altura, quis escrever um romance sobre um pescador de bacalhau. Acabei por escrever uma novela que incluí aí no Mar. Portanto já tinha uma série de coisas que poderia incluir numa enciclopédia temática e então juntei para fazer este volume.»


Três das estórias deste volume acabam por estar ligadas e entrelaçam em si mesmas questões como destino, encontros, desencontros, livre arbítrio, inevitabilidade e aceitação. «Essa coisa do destino, das coincidências que todos passamos e vivemos, os desencontros e os encontros agradam-me muito. Porque criam uma trama, uma tapeçaria. Nós olhamos para a vida e percebemos que realmente há imensos laços, imensas coisas que por vezes nem nós conseguimos unir, mas eles, de alguma maneira, estão mais ou menos entretecidos e agrada-me muito isso nas histórias - mostrar que o mundo é esta tapeçaria estranha com encontros e desencontros. Por vezes os fios não vão parar onde nós imaginamos e vão parar a outro lado. Claro que me agrada muito também a ideia de destino, de liberdade, qual é a liberdade que nós temos para escolher ou não escolher, também do tempo e de todas estas coisas que fazem parte da nossa vida e que na realidade são os grandes mistérios da nossa vida – a morte, o tempo, etc. Aliás, filosoficamente, o tempo... Santo Agostinho disse “se nós percebemos o tempo, percebemos Deus.” Há mistérios que são muito difíceis de compreender, o tempo agrada-me imenso e há alguns livros que colocam algumas questões sobre isso foram sempre muito importantes para mim. Falo sempre muitas vezes sobre o Flatland, ele dá-nos umas perspectivas e coloca-nos algumas questões muito curiosas sobre o tempo. Isso foi também uma espécie de moda no final do século XIX e que depois, se calhar, culminou na física do século XX, com novas teorias sobre o tempo, em que o tempo não era aquilo que nós imaginávamos que era - uma setazinha que vai do passado para o futuro. Tudo isso é importante para mim e é uma coisa que tenho muito prazer de passar nas histórias. Essas três, em especial, funcionam num conjunto porque são as mesmas personagens. Em todas elas, pelo menos, nós percebemos uma faceta diferente de cada personagem e, portanto, de certa maneira, aquelas três histórias reunidas em conjunto, seria uma espécie de romance.»


Outro facto curioso é que há personagens dos romances que aparecem nas diferentes enciclopédias. Perguntei ao Afonso em tom de brincadeira se isso era para "obrigar" os leitores a lerem todos os seus livros: «Não, obrigar não. (risos) Até porque tu não precisas de conhecer aquela personagem para compreender aquele livro, mas quando tenho uma personagem que, a determinada altura, tem determinadas características e que vai aparecer naquele livro e se eu já tenho essa personagem criada, se ela já existe com essas características, porque não usar exactamente a mesma? Dou-lhe mais um bocadinho de vida, mais um novo ângulo sobre essa personalidade e essa personagem.»


FIM DA SEGUNDA PARTE


Relembro que em Janeiro de 2013 uma primeira entrevista foi feita e podem lê-la aqui: http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

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